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Fundo texturizado azul

O tolo que não sabia o valor das pérolas de mana

Ele não tinha nome, nem passado, nem esperança. Até encontrá-la.

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O tolo que não sabia o valor das pérolas de mana

A água caía sem descanso. Descia de uma parede de pedra clara, tão alta que a elfa Étain precisava jogar a cabeça para trás se quisesse ver onde começava, e batia lá embaixo com um estrondo alto e constante. A Cachoeira dos Deuses levantava gotículas que nunca assentavam, e dentro da névoa o sol abria um arco de cores que ia de uma margem à outra do rio. Étain sabia a hora em que o arco ficava mais forte. Chegava sempre um pouco antes. A cachoeira ficava na terra dela, perto da sua pequena casa e ela conhecia cada seixo dali desde que aprendera a andar. 

Vinha pelas pérolas. De tempos em tempos o rio empurrava uma até a beira, entre os seixos, e era preciso paciência para achar. Tirou as sandálias e entrou na água rasa. O frio subiu pelos tornozelos e ficou ali, enquanto ela passava os dedos pelo cascalho do fundo. 

Achou uma. Pequena, azulada, do tamanho de um caroço de ameixa, com um brilho fraco por dentro que não vinha do sol. Homens matavam por uma dessas. Étain juntava porque eram bonitas. 

O vento subiu do rio e jogou o cabelo preto no rosto dela. Prendeu a mecha atrás da orelha pontuda e sentiu a ponta tremer de contentamento. Era miúda, de braços finos. Pele clara, cabelo liso descendo até o meio das costas em cima do seu vestido roxo, olhos grandes e púrpuras. Olhou o arco de cores, depois a água caindo, depois o céu limpo, e por fim a esfera na palma da mão pálida. 

Tanta coisa bonita neste mundo. Todos passam, e ninguém repara. 

Guardou a pérola dentro da roupa e tomou o caminho de casa. Não era longe, o campo aberto, a cerca de pedra, a fumaça da chaminé aparecendo antes do telhado. Ia levar bronca. A mãe não gostava que ela saísse sozinha, e o sol já estava baixo. 

Foi quando o mato se mexeu à direita da trilha. Não era um animal pequeno, e não era um só, ela largou tudo e correu. 

Ouviu o mato se abrir atrás dela e passos pesados batendo na terra. Ouviu também um zunido, alguma coisa girando no ar. Olhou para trás: um homem rodava uma boleadeira acima da cabeça. Voltou o rosto para a frente. As correias se enrolaram nas pernas dela e apertaram. Étain caiu de queixo no chão batido, e a boca se encheu de terra e sangue. 

— Viemos pegar pérola de mana e achamos uma pérola elfa. Sorte a nossa. 

Ela conseguiu virar o corpo. A cabeça girava, o chão subia e descia. O homem já vinha com o cabo do machado erguido, e ela viu só as roupas escuras e o bigode curvo antes de a dor na têmpora apagar tudo. 

 

O cheiro chegou antes da luz: urina e mofo. 

— Essa é bonita, mas tá machucada. 

Étain abriu os olhos. A cabeça latejava acima da orelha esquerda, e o cabelo estava colado de sangue seco. A luz entrava fraca por uma fresta alta e mal alcançava as grades, a palha suja no chão e a parede escorrendo umidade. 

Do outro lado das grades, um homem esfregava o corredor. Cabelos loiros e cacheados, compridos, embolados de sujeira. Pele branca, roupa surrada, pés descalços. Numa das mãos, presa ao pulso, havia uma argola branca, grossa e lisa, sem corrente, sem fechadura, nenhuma serventia à vista. Ele falava sozinho, baixo, e olhava para ela de lado, com olhos opacos que não diziam coisa nenhuma. 

Étain se levantou apoiada na parede e ficou olhando para ele. Ele não se mexeu. O esfregão parou de andar no chão. 

— Por favor. Onde eu estou? Me diz. 

Ele respondeu sem virar o rosto, e baixou os olhos para o próprio pé. 

— Meu senhor disse pra eu não falar com os cativos. 

Ela chegou perto e segurou as grades com as duas mãos. 

— O que querem comigo? 

— Você não deveria estar aqui... Desculpa. 

Ele pegou o balde e saiu andando devagar, arrastando um pouco a perna esquerda. 

Os dias passaram assim. Étain aprendeu a contar pela luz que entrava, que nascia fraca, ficava branca e sumia laranja. Aprendeu também o resto: o pão dormido de manhã, a água com gosto de barro, as vozes das outras nas celas do fundo. Eram todas moças. Uma chorava quase toda noite. Outra rezava numa língua que Étain não conhecia, sempre as mesmas palavras, na mesma ordem. 

O homem do esfregão aparecia todo dia. Deixava a comida, tirava a caneca vazia, limpava o corredor. Às vezes parava na frente da cela e ficava ali parado, olhando. Quando ela olhava de volta, ele se assustava e ia embora. 

De vez em quando, vinham vozes de homens do outro lado da porta pesada. Regateavam como num mercado de gado, discutiam preço, riam alto, algumas vezes brigavam. Depois de cada negociação uma das vozes das celas do fundo sumia, e à noite havia uma boca a menos rezando. 

Étain entendeu o que ia acontecer com ela. 

Numa tarde o homem do esfregão apareceu com um pedaço de queijo na mão. Olhou para os dois lados do corredor antes de estender o braço entre as grades. 

— Pega. Era meu, mas eu não quero. 

Étain pegou o queijo e segurou a mão dele. 

Ele puxou. Puxou outra vez, mais fraco, e desistiu. Ficou olhando para a mão dela em volta da dele, depois levantou o rosto e olhou para ela. Parecia feliz com o toque. 

— Por favor. Me tira daqui. 

— Eu não posso. 

Ele levantou a outra mão, a da argola branca, exibindo-a como prova. 

— Qual é o seu nome? — perguntou Étain. 

— Eu não tenho mais nome. 

— Alguém tem que te chamar de alguma coisa. 

— Chamam de Fosco. Às vezes senhor Fosco. 

— E é o seu nome mesmo? Fosco? 

— Não sei mais se é. 

Uma porta bateu no fim do corredor. Passos vinham rápido, e eram dois pares. Fosco arrancou a mão da dela, pegou o esfregão e começou a esfregar o mesmo pedaço de chão que já tinha esfregado. 

Os dois homens pararam na frente da cela. Um era o mesmo que a derrubara na trilha com o cabo do machado: cabelo penteado para o lado, rente à cabeça, bigode curvo nas pontas, pele clara, roupas escuras de corte fino. O segundo era negro, de roupas leves e claras que caíam soltas pelo corpo, com um lenço enrolado na cabeça. Étain nunca tinha visto ninguém dos reinos do Deserto da Ilusão, mas reconheceu o feitio pelas histórias que a mãe contava. 

— Eu não disse pra não falar com a mercadoria? 

Fosco encolheu os ombros e ficou pequeno. 

— Calma. Calma. Vem cá. 

Fosco arrastou-se de viés. O homem fez carinho no rosto dele. Fosco ficou tenso com o gesto, e o homem segurou o queixo dele. 

— Olha, isso é um trabalho de qualidade, ele já foi teimoso, agora não passa de um cão obediente. — Virou o rosto de Fosco para o homem. — Olha esses olhos sem vida. Prova de um trabalho bem-feito. 

O homem bateu com as costas da mão no rosto dele e o derrubou no chão. 

— Agora sai daqui, seu imprestável. 

Fosco ficou no chão, corpo encolhido, se levantou sem dizer nada e saiu sem olhar para trás. O homem ajeitou o punho da roupa e se virou para as grades. 

 — Muito prazer. Meu nome é Hywel. Sou seu dono agora. — Deu mais um passo. — Qual é o seu nome, elfinha? 

 Étain olhou para ele, depois baixou o rosto. 

 — Vou ter que entrar aí pra você abrir a boca? 

 — Sou Étain, senhor. 

— Levanta. 

Ela se levantou e ficou parada, com os braços cruzados à frente do corpo. 

— Olha só que linda. Nova, cheia de vida, calma. — Bateu de leve na grade. — Levanta os braços. 

Ela levantou. 

— Agora mostra os dentes. 

Ela mostrou. 

— Viu? Não vai te dar trabalho nenhum. 

O homem do deserto rodeou a cela com os olhos, sem se apressar. 

— Quanto pela elfa? 

— Cinco moedas de ouro. Nem uma a menos. 

— Cinco. — Ele disse a palavra com lentidão. — Por cinco eu levo três moças na costa e ainda me sobra pra estrada. 

— Moça da costa se acha em qualquer lugar. Orelha pontuda, não. — Hywel bateu de leve na grade, ao lado do rosto dela. — Olha a pele. Olha a idade. Isso aqui dura uma vida e não enjoa. 

— Dura muito e dá trabalho o dobro. Elfa foge, elfa morde, elfa reza pros deuses dela de madrugada e tira o sono da casa inteira. — Ele deu um passo atrás. — Os tempos não estão pra capricho. Levo a outra. A que não fala. 

— Você vai lembrar dessa aqui a viagem toda de volta. 

— Talvez. Lembrança não vale nada. Cinco moedas, valem. 

Os dois se afastaram pelo corredor, ainda discutindo preço, e as vozes foram ficando distantes. Pouco depois Étain ouviu uma porta, um choro curto e o barulho de uma carroça partindo. Depois mais nenhuma voz. 

Eles me olham e enxergam mercadoria. Acho que agora estou sozinha aqui. Eu tenho que sair daqui. Eu tenho que voltar pra casa. 

Depois daquele dia o carcereiro não falou mais com ela. Limpava, deixava a comida, recolhia a caneca e não levantava o rosto. Sempre aquele olhar apagado. Étain passava as noites tentando imaginar o que a vida tinha feito para quebrar um homem daquele jeito. 

 

A luz estava laranja quando os gritos começaram do lado de fora. 

Vieram cavalos, muitos, e ferro batendo em ferro. Alguma coisa grande caiu e o chão da cela tremeu. O corredor se encheu de fumaça, e a fumaça tinha cheiro de óleo queimado. 

Fosco apareceu correndo, com uma chave na mão, e olhou Étain nos olhos como não fazia há semanas. 

Encaixou a chave na fechadura. A mão parou no meio do movimento. 

Ele forçou. O braço inteiro tremia, o rosto ficou vermelho, o pescoço inchou com as veias saltadas, e a mão não mexia mais um dedo sequer. 

Fosco olhou para a argola branca no próprio pulso. 

Então enfiou o braço entre as grades, prendeu a argola do outro lado do ferro e puxou. Ela não saía. Firmou os dois pés na grade, o corpo pendurado no ar, e tornou a puxar, com o peso todo. A pele do dorso da mão saiu primeiro e ficou dobrada para trás, e ele continuou. Dois dedos estalaram e ficaram tortos. A argola desceu pelo pulso arrebentado e caiu na palha suja, branca e lisa, sem uma gota de sangue nela. 

Ele apanhou a chave do chão com a mão boa e abriu a jaula. 

— Sua mão. Por que você fez isso? 

— Eu não consigo falar não pro meu senhor com aquilo na mão. — Segurou o braço dela e puxou. — Vem. O mestre não pode pegar a gente. 

O pátio estava aceso. Havia fogo no telhado do depósito, homens lutando, corpos caídos na terra pisada. Ninguém olhou para os dois. Passaram rente ao muro, saíram pelo portão arrombado e correram por uma rua de casas tortas de madeira, terra batida com água passando pelo meio, e o cheiro não era de água, entre mendigos encolhidos nos vãos e mulheres que, da porta dos bordéis, assistiam ao incêndio. Correram até onde as casas acabavam. Depois só caminhavam, um apoiado no outro, e já era noite quando encontraram uma mata e entraram. 

Estava escuro ali dentro, e não se via nada além de um passo à frente. Mas o cheiro de sangue e cinza ficou para trás depressa, e no lugar dele veio um perfume que nenhum dos dois soube dizer de onde vinha. 

Encostaram-se numa árvore, um de cada lado do tronco, e dormiram de exaustão. 

 Étain acordou com o sol na cara e um punhado de cogumelos na frente do nariz. 

 Fosco estava agachado, a mão estendida. Ela examinou os cogumelos até ter certeza de que não eram dos venenosos, e só então olhou em volta. 

As árvores tinham mais flor do que folha. Eram brancas e roxas, algumas de um amarelo quase apagado, e caíam sozinhas sem vento, de tão maduras, girando até o chão. O chão inteiro era flor, camada sobre camada, e afundava um pouco sob o pé. Um riacho corria a uns vinte passos, tão limpo que parecia vidro, e nele as cores das margens vinham de volta trocadas de lugar. Em algum ponto acima da copa, alguma coisa cantava e parava, cantava e parava, e não era pássaro. 

Étain ficou olhando aquilo com o cogumelo esquecido entre os dedos. Depois viu a mão dele. 

— Você está ferido. 

— Tá sarando. 

Étain viu que não estava. 

— Você disse que não podia desobedecer o seu senhor. 

— O grilhão. Ele é mágico. De brilho. 

— Entendi, ele te obrigava a obedecer. — Ela abaixou a cabeça. — Muito obrigada. Eu não agradeci ontem porque eu estava com muito medo. 

— Eu feliz de você ficar livre. 

— Quem é você? 

— Eu não lembro quem eu sou. Só lembro de ser eu. 

— Está bem. — Ela voltou a olhar as árvores, procurando alguma coisa conhecida, e não achou nada. — A gente tem que chegar na minha casa, mas eu não sei onde a gente está. Aqui deve ser o Bosque Encantado. Se for, aquele vilarejo é Crumbunt, que já foi subordinado ao Reino dos homens de Cadanor, mas hoje só tem ladinos e assassinos. Minha casa fica ao norte, na Cachoeira dos Deuses, perto do reino élfico de Solasgiran. Eles me levaram pra bem longe. 

— Casa. Eu queria uma casa, — disse Fosco. 

— Você vai ter uma. Eu vou cuidar de você. Ninguém mais vai te judiar. 

Ela o levou pela mão até o riacho e ajoelhou na margem. 

— Vamos lavar isso. Está muito feio. 

Ela estendeu a mão na direção dele e ele se encolheu. 

— Não tenha medo, eu não vou machucar você. 

Pegou o pulso ferido com cuidado e lavou com calma, tirando a terra de dentro da carne aberta, e ele ficou quieto, olhando o rosto dela em vez de olhar o ferimento. 

— Você é boa. Seus olhos são mágicos. 

— Meus olhos são como os seus. 

— O meu é feio o seu é bonito e brilha. 

Étain ficou com um leve rubor. 

— Obrigada. 

Sentaram na beira da água. Étain tentou pensar no que fazer, e não chegou a lugar nenhum. Estavam com fome e com frio. Ela nunca tinha passado uma noite fora de casa antes de tudo aquilo, e ele não sabia se virar sozinho. 

Foi então que ela viu um rosto pequeno entre as flores. O rosto percebeu que tinha sido visto e sumiu. 

— Quem está aí? A gente não vai fazer mal pra ninguém. Pode sair. 

O rosto voltou. Era uma fada, do tamanho de uma mão, de cabelo rosa e asas de borboleta, vestida em folhas amarelas costuradas umas nas outras. Voou até a metade da distância e parou no ar, com as mãos juntas na frente do corpo. 

— Olá, pequenina. Eu sou Étain. Esse é meu amigo, mas ele não lembra o nome dele. 

Ele acenou de leve, sem jeito. A fada viu a mão. Perdeu toda a timidez de uma vez, voou até ele e segurou os dedos quebrados com as duas mãozinhas. 

— Ele está machucado. 

— Nem dói — disse ele. 

A fada girou a varinha, tocou na própria palma e depois encostou a palma na mão dele. 

— Lumien neilmirlu en. 

Uma luz verde escorreu dos dedos dela e entrou na carne. A pele fechou por cima do osso, os dois dedos voltaram sozinhos para o lugar, e o que ficou foi um pulso limpo, com uma marca clara em volta, do tamanho da argola. 

A fada não soltou a mão dele. Olhou o rosto dele por muito tempo, e ficou séria. 

— Você tem um machucado bem maior do que esse. E é de uma espécie que a minha cura não alcança. 

— Que machucado? — perguntou Étain. 

— Na cabeça dele. Alguma coisa mágica ficou corroendo ele por dentro durante anos. — A fada segurou a mão dele com mais força. — E tem outra coisa embaixo. Uma luz velha, adormecida faz muito tempo. 

— Que luz? — perguntou Étain. 

— Não sei ao certo. É mana grande demais pra mim. — Ela olhou pra roupa de Étain, pro lugar onde a pérola ia escondida. — Você tá com mana pura aí. Perto de uma luz dessas, mana não fica quieta. Toma cuidado. 

Étain mal ouviu o resto. A luz antiga que esperasse; ela queria ele curado. 

— E o machucado da cabeça? Como a gente tira isso dele? 

— Ele tem que se soltar sozinho. Sinto muito. 

— Eu tô machucado — disse ele, e não parecia triste ao dizer. — Eu queria ser eu. 

Étain o abraçou, e ele demorou a entender o que fazer com os braços. 

Dormiram ao relento as primeiras noites, porque ele não sabia fazer nada e ela não sabia fazer quase nada. Depois o bosque tomou conta. 

As fadas sempre cantavam pra eles, um bando inteiro, cada uma do tamanho de uma mão, de asas de borboleta e roupa de folha costurada. Cantavam de dia e de noite, numa língua que Étain já ouvira em histórias do extinto reino das nuvens dos altos elfos, uma língua que grudava na cabeça e não saía mais. 

Depois das fadas, os gnomos foram os primeiros a aparecer: três deles, baixinhos e atarracados, de barba cinza e mãos grandes demais para o corpo. Levantaram uma cabana de terra socada e folhas trançadas com magia, e mesmo assim levaram dias arrumando detalhes que só eles enxergavam, resmungando o tempo inteiro que ninguém tinha pedido ajuda deles. Terminavam uma parede e já começavam a reclamar da próxima, mas não largaram o serviço até a cabana ficar do jeito deles. 

As ondinas, pequenos seres de torso quase humano, levemente azulado, e cauda de peixe, puxaram um veio de água do riacho até a porta, e o veio passou a correr numa canaleta que ninguém tinha cavado. Eram translúcidas como a própria água, e só dava pra vê-las direito quando o sol batia no veio e desenhava o contorno delas. 

As salamandras acendiam a fogueira toda noite, e toda noite reclamavam de ter que acender, mesmo assim sempre voltavam na noite seguinte. Tinham torso de gente e, da cintura para baixo, corpo de serpente coberto de escamas cor de cobre que brilhavam de brasa por dentro. Onde passavam, o ar tremia de calor e o orvalho da grama chiava e virava fumaça. Não precisavam de faísca: enrolavam a cauda na lenha, e a madeira pegava sozinha, só do contato. 

— Eles são nossos amigos, — perguntou Fosco. 

— São sim. Mas são mais que isso, são seres da própria natureza, cada um representa um elemento. Tímidos, alguns resmungões, mas todos do bem. E eles veem isso na gente. 

Étain aprendeu a assar raiz na brasa e a reconhecer o cogumelo bom pelo cheiro em vez da cor. Ele aprendeu a carregar lenha sem derramar metade no caminho. 

A lua encheu e minguou, e encheu de novo, e a vida dos dois foi ganhando forma de vida. Foi nesses meses que ela lhe deu um nome. 

Ele só se lembrava de Fosco, às vezes senhor Fosco. Nome dado por gente ruim, sem nenhum carinho dentro. Étain achava aquilo a coisa mais triste do mundo. 

— Eu vou te chamar de Fofo — disse ela, numa tarde, enquanto lavava o rosto dele no riacho. 

— Fofo. — Ele repetiu, experimentando a palavra como uma roupa nova. — Gordo. 

— Não, fofo e lindo. 

— Gostei. 

Noutra tarde ela tirou de dentro da roupa a pérola de mana. Tinha carregado aquilo escondido desde a trilha, através da cela, do incêndio e da fuga, e era tudo o que lhe restava do dia em que a vida dela virou outra. 

— Olha, — disse Étain 

Fofo se aproximou e ficou de joelhos na frente da mão dela, com os olhos arregalados no brilho azul. 

— É bonita. — Depois olhou para o rosto dela, e de volta para a esfera, e mais uma vez para o rosto, comparando as duas. — Você é bonita igual. Eu sou fofo e você é a pérola. 

Ela riu. E dali em diante ele nunca mais a chamou de outra coisa. 

Muitas noites ficaram na frente do fogo, e ela falava, e ele escutava, porque ele quase nunca tinha o que dizer e ela tinha guardado palavras demais dentro de uma cela. 

Contava da cachoeira perto de casa, a água caindo da pedra alta, o arco de cores dentro da névoa. 

— Tinha uma hora que o arco ficava mais forte. Eu chegava sempre antes, só pra não perder. 

— Me leva lá. 

— Um dia eu levo. — Ela mexeu a brasa com um graveto. — Mas fica longe. Ao norte daqui, num lugar mais frio e com menos árvores. 

— Então a gente anda muito. 

— A gente anda muito. — Ela riu baixo. — Você e eu. 

— Eu queria te perguntar uma coisa, mas acho que você não vai conseguir responder. — Étain colocou as mãos sobre as dele. — Essa luz que a fada disse que está dentro de você. Algum dia você já sentiu alguma coisa aí dentro? Eu tenho uma sensação estranha perto de você. Depois que a fada falou, ficou mais nítido, mas não consigo entender essa sensação. 

— Eu não sei de luz, eu nunca vi essa luz. 

— Imaginei que não saberia. Mas quem não pergunta, não entende. 

Ele não sorria com a boca. Sorria com os ombros, que subiam um pouco quando estava contente, e Étain se pegava boba de um jeito que nunca fora, até ele aprender a sorrir. E foi aprendendo a ser homem inteiro assim, aos poucos, ao longo daquelas luas: o jeito de encolher quando alguém levantava a voz, o cuidado bobo de não queimar a mão na fogueira, o costume de procurar a mão dela no escuro só pra saber que ela ainda estava ali. Era tolo, um pouco encurvado, não encarava ninguém por muito tempo. Mas era bom. E ela, que tivera uma casa cheia de coisas bonitas, foi descobrindo que aquilo valia mais do que tudo o que juntara na vida. 

Étain estava distante da cabana, escondida de Fofo, chorando e tentando não fazer barulho, quando Fofo se aproximou. 

— Você chora, tá triste com Fofo. 

Ela limpou os olhos e sorriu levemente. 

— Não tô triste com você, na verdade você me faz feliz. Às vezes sinto falta da minha mãe. 

— Você vai embora. 

— Não vou embora, só preciso chorar às vezes. Não pretendo sair daqui, e se sair, levo você junto. — Ela se levantou e bateu as mãos no vestido, tirando a terra. — Agora vamos voltar, já passou. 

Decidiram que ali era a casa deles, e que não voltariam para a casa da mãe dela. 

Numa noite de lágrimas, Étain se banhou no riacho ao luar. 

As estrelas desciam em gotas pequenas, brancas, que atravessavam a copa e sumiam antes de tocar o chão. As lendas antigas diziam que aquilo acontecia quando a deusa Tália estava muito triste. Étain nunca tinha visto uma noite dessas, tão perto do céu aberto, e ficou na água muito além do necessário. A água do Bosque Encantado era sempre morna, sempre reconfortante. 

Foi quando percebeu Fofo parado entre as árvores, olhando. 

Levou a mão ao corpo. Depois deixou o braço cair, fingiu não ter visto e continuou se banhando sob as estrelas. Saiu da água. Vestiu-se com calma e foi até a cabana. Ele estava sentado, encolhido, sem levantar os olhos do chão. 

— Eu vi você me olhando. 

— Eu não... desculpa, Pérola. 

— Não precisa ter medo. — Ela sentou ao lado dele, nas folhas que usavam de assento, e pôs a mão sobre a dele. — Você me acha bonita. Você me quer? 

— Você é bonita. Mas eu sou bobo. Eu não sirvo pra você. 

— Serve, sim. Você é um homem bom e tem o coração gentil. 

— Você não me acha bobo? 

— Eu acho que eu fico boba perto de você. Nós vamos ser dois bobos juntos. 

Ela chegou mais perto. A mão dele tremia, e ele olhou para os lados, para trás, parecia procurar uma saída. 

— Você não me quer? 

Ele levantou os olhos do chão e, pela primeira vez, não os baixou de novo. 

— Eu quero. 

Ela tomou o rosto dele e o beijou. Foi um beijo desajeitado, o primeiro que ele dava, e ele ficou de olhos abertos, sem entender que aquilo também podia ser dele. Depois entendeu, e a segurou com firmeza. Deitaram-se sob as lágrimas das estrelas. Ele tremia, não sabia onde pôr as mãos, e ela guiou cada uma, toque por toque, no seu tempo, no seu corpo, com uma paciência que nem sabia ter. Depois ela o tocou, onde os outros só tinham batido, ela tocava com brandura, até ele aprender que ser tocado podia não doer. Consumaram o amor ali mesmo, e, depois de tanto tempo, ele não estava mais sozinho. 

De manhã havia uma fada sentada no batente, esperando com as pernas balançando. Mais atrás, dois gnomos fingiam consertar a canaleta. 

— O que foi? — perguntou Étain. 

— Vocês fizeram barulho de noite. Agora vocês se amam. — A fada juntou as mãos. — Eu acho o amor de vocês tão bonito. Tão puro. 

Um gnomo largou a pá. 

— Eu acho que ela é aproveitadora. 

Uma ondina subiu na canaleta até a metade do corpo. 

— E eu acho que ela amar ele é a coisa mais linda que já aconteceu neste bosque. Não aproveitou nada. 

De longe, em cima de uma pedra quente, uma salamandra assistia a tudo e julgava em silêncio. 

— Então a gente virou o assunto do bosque — disse Étain. — Pois fiquem sabendo que estamos apaixonados, e que eu não me aproveitei dele.

— Eu não sou criança. — Fofo apareceu na entrada, coçando a cabeça. — Eu quero a Pérola. Não briga com ela. 

— Ninguém está brigando — resmungou o gnomo. — Eu só comentei. 

— Pois então guarde esses comentários — disse Étain, brava. 

Os gnomos voltaram a mexer na canaleta, a salamandra fechou os olhos na pedra, e a briga terminou ali mesmo, sem vencedor. 

As luas seguiram passando, e foi por esses dias que a fada deixou de sossegar. Voltava sempre do lado da estrada, farejando o ar, e não dizia o que procurava. Numa tarde apontou para longe, entre os troncos, e Étain teve tempo de ver um vulto a cavalo parado na sombra, olhando. Quando piscou, não havia mais nada ali. A fada ficou o resto do dia perto do chão, calada, e não quis cantar à noite. 

Uma lua depois, Étain veio para junto dele na frente do fogo. Já sentia o corpo diferente havia algum tempo, e agora tinha certeza. 

— Sabe que tem um bebê aqui? Nosso bebê. — Pôs a mão sobre o ventre. 

— Nosso bebê? — Ele olhou para a barriga dela e não entendeu. 

— Tem. Um pedacinho meu e seu. 

— Um homem pequeno. 

— Isso. Um homem pequeno ou uma mulher pequena. 

— Eu gostei disso. Mas se ele for bobo igual eu. 

— Ele não vai. Foram homens maus que te deixaram assim, e mesmo se fosse eu iria amá-lo, assim como te amo. 

— Eu sou feliz agora. 

— Eu também, meu Fofo. — Ela encostou a testa na dele. — Eu sou a pessoa mais feliz de todo o Andronor. 

A barriga cresceu pouco a pouco sob a roupa, lua após lua, e a cada lua a fada ficava mais inquieta. Ia e vinha do lado da estrada, à espera de que o cheiro voltasse. Os gnomos ficavam atentos, as salamandras se revezavam à noite, e os bichos menores tinham sumido das trilhas. 

Foi uma fada que veio avisar, voando torto de tanta pressa. 

— Ele voltou. O homem do cavalo. Está mais perto. 

Mas já era tarde: o sujeito parou entre as árvores, do mesmo jeito da outra vez, e encarou os dois, quieto. Não disse nada. Virou o cavalo e foi embora tranquilo, e a calma dele assustou Étain. 

— Será que ele vai fazer alguma coisa? Eu estou com medo. 

— Ele estava sozinho — disse a fada. — Mas fica de olho. Aquele homem tem o cheiro do lugar de onde vocês fugiram. 

— E se ele voltar com mais homens? 

A fada demorou a responder. 

— A gente não briga com homem armado. Nunca deu certo. Quando vem gente com ferro, o bosque some no mato e espera passar. 

Por dias não aconteceu nada. Étain assava a raiz na brasa com a barriga já pesada, Fofo carregava a lenha sem derramar, e à noite ainda se sentavam ao fogo, ela falando, ele escutando. Só a fada não descansava, rondando a beira da estrada à espreita. Então se deitaram. 

Acordaram com cavalos. A manhã mal tinha clareado, a luz fraca, e as flores caíam sobre a cabana como em qualquer outra. O riacho corria manso na canaleta quando os cascos encheram a clareira. 

Eram oito ou nove homens, e vieram pela clareira sem se esconder. Homens de estrada, de barba por fazer e couro gasto, de faca e machado no cinto. As fadas subiram para a copa, os gnomos sumiram na terra, e o bosque inteiro ficou quieto de um jeito que Étain nunca tinha ouvido. Hywel desmontou e veio na frente, batendo a poeira da manga. 

— Fosco, seu imprestável. Fugiu e ainda levou a elfa. — Hywel parou na frente dele. — Aquele fogo me custou caro. Passei esse tempo todo remontando tudo que queimou. Mas nunca perdi vocês de vista. Só esperei ter homens pra vir buscar. — Do cinto tirou a argola branca e jogou aos pés dele. — Achou que ia se livrar arrancando a mão? Custou caro demais pra ficar largada na palha. Põe isso e volta pro teu lugar. 

Fofo baixou os olhos para a argola caída entre as flores. 

Étain entrou na frente dele. 

— Vão embora. Deixem a gente em paz. 

— Olha só, a mercadoria reclamando. — Hywel riu para os homens atrás. — Eu ia vender você. Agora eu quero você por perto. Você vai aprender o teu lugar, e eu vou gostar. 

Hywel não esperou resposta. Soltou o chicote do cinto e bateu. O couro pegou de través, no ombro dela, e abriu a roupa e a pele. 

Os homens fecharam o círculo. 

Fofo deu um passo à frente. 

— Vão embo... bo... bora, — disse Fofo. 

— Agora você está me enfrentando? 

Hywel colou o rosto no dele e não se moveu. Fofo aguentou o olhar um momento, depois baixou os olhos de novo, para onde sempre voltavam. 

— Você é meu bicho. É o meu boneco de palha pra pancada. 

Bateu com as costas da mão. Os anéis abriram o rosto de Fofo em três lugares e ele caiu, e Hywel começou a chutar as costelas dele. 

Étain se jogou por cima do corpo dele. 

— Sai daqui, seu humano sujo. Seu imundo. Deixa ele em paz. 

— Imundo? 

Hywel sacou a adaga e enfiou no peito dela. 

Étain caiu de lado nas flores. Cuspiu sangue, tentou puxar o ar e não conseguiu puxar tudo. A pérola de mana rolou de dentro da roupa dela e parou nas flores, perto da mão. Fofo se arrastou até ela e a segurou nos braços, chorando com a boca aberta, sem fazer barulho nenhum. Ela levou a mão à barriga e a deixou ali, sobre o filho dos dois, como se ainda desse pra proteger alguma coisa. Buscou o rosto dele, achou, e ali ficou, porque de todas as coisas que aprendera a ver naquele bosque aquela era a única que queria levar. Os lábios se moveram sem som. Depois o braço cedeu, a mão escorregou do ventre, e ela ficou olhando para ele, de olhos abertos, sem enxergar mais. 

*** 

Fofo pôs o corpo dela no chão com cuidado e se levantou. 

— A tua meretriz já era. Põe a argola e vamos. 

Ele não estava escutando. Alguma coisa tinha voltado por dentro dele, e não era lembrança ainda, era o lugar onde a lembrança morava. 

— Você não vai me obedecer? Então morre com ela. 

Hywel investiu com a adaga. Fofo segurou a lâmina com a mão fechada, e a lâmina não cortou. Tomou a arma do velho. 

Os homens vieram por trás. Fofo virou o rosto para eles, e a luz que saiu dos olhos dele fez todos pararem onde estavam, com as armas erguidas pela metade. 

Hywel acertou um soco no rosto dele. Fofo travou a mandíbula, absorveu a pancada sem recuar um passo e enfiou a adaga na barriga do velho, até o punho. 

Hywel sentou no chão devagar, com as duas mãos em volta do cabo, e ficou olhando para elas. 

Os homens ficaram parados em volta, sem decidir se avançavam ou corriam. Um deles viu o próprio senhor morrendo ali sentado, e pareceu concluir que não ganhava nada com aquilo e correu. Os outros foram atrás. 

Fofo se ajoelhou ao lado de Étain. Não havia mais nada no rosto dela, nem dor. 

Os seres do bosque foram chegando de todo lado, dos galhos, da terra, da água, e ficaram em volta dos dois, guardando distância. 

— Cura a pérola — disse Fofo. 

A fada pousou na flor mais próxima do rosto de Étain. 

— Sinto muito. Eu já não consigo. O coração dela parou. 

Então ele sentiu de novo aquilo por dentro. Uma luz antiga, que estava ali desde antes de tudo o que ele conseguia lembrar, quieta a vida inteira embaixo de outra coisa. A luz acordou, mas era pouca. Não alcançava Étain onde ela tinha ido. 

A pérola estava nas flores, ao lado da mão dela, com o brilho azul fraco por dentro. Ele pegou. A luz dentro dele puxou a mana da pérola pra si, e com a mana veio a força que faltava. Mas força não bastava pra trazer alguém da morte. Isso custava mais, e o que custava era a vida de quem fazia. A dele. 

Soube que o caminho passava pelo bebê no ventre dela, que ainda estava vivo. Não pensou. Pôs a pérola sobre o ventre dela, cobriu com as duas mãos e fechou os olhos. 

A luz saiu dele através da pérola e foi entrando nela, e enquanto ia a memória voltou toda de uma vez. 

Ele recém-nascido, ainda sujo do parto, e a mãe morrendo na cama ao lado sem chegar a segurá-lo. Um homem chorando diante do retrato daquela mesma mulher, e o mesmo homem apontando o dedo para o berço, num gesto de acusação. Depois esse homem entregando a criança a um senhor de escravos e contando as moedas uma a uma, com atenção, antes de ir embora e não voltar nunca mais. 

Hywel prendendo o menino com corrente num quarto sem janela. O menino tentando fugir e apanhando de chicote. O menino tentando outra vez, mordendo, gritando um nome que era dele e que ninguém quis ouvir, até Hywel fechar a argola branca no pulso e o nome afundar junto. O menino servindo à mesa e comendo depois o que caía no chão. O menino que ainda guardava, num canto da palha, um graveto que tinha o formato de um homem, achado no pátio, vestido como um boneco. O dia em que acharam o graveto vestido e o jogaram fora, e ele não chorou, porque já estava aprendendo a não querer nada. 

Os olhos dele se apagando um pouco a cada ano. E depois disso uma escuridão sem começo e sem fim, um mergulho fundo onde o som some e a pressão engole a pessoa por inteiro, um mar onde ninguém consegue existir, os ouvidos tapados pela ausência. E, no fundo daquilo, o que ele tinha virado. 

Nada. 

Foi então que veio a primeira luz, e a primeira luz tinha o rosto de Étain. Ela na cela, presa, olhando através das grades para um homem que ninguém olhava. A mão dela segurando a dele. O queijo que ele deu porque era a única coisa que tinha pra dar. O riacho. O nome novo, o primeiro nome dito com carinho na vida dele. A pérola azul na palma aberta. Étain no riacho, sob as lágrimas das estrelas caindo entre as árvores. 

Ela abriu os olhos e o encontrou ali em cima, fraca demais para levantar a cabeça. 

— Meu Fofo. Eu tava em outro lugar, eu não era... Eu acho que vi você. Mais novo. — Olhou o rosto pálido dele. — Fofo... 

A luz nos olhos dele foi se apagando. A pérola sob as mãos dos dois tinha ficado escura, sem nada dentro. 

— Lembro meu nome... Eu sou Idris. 

Ele fechou a mão dela em volta da pérola. Pôs a própria mão sobre o ventre dela, e então o corpo dele caiu no tapete de flores, os olhos a buscaram uma última vez, e tudo se apagou. 

Idris morreu. A luz que ele carregava, não. Ela é mais velha que ele, mais velha que tudo, e não se apaga. Mil anos depois desta história, essa luz volta a arder em Andronor. É aí que começa O Quinto Primordial. O prelúdio da saga já está quase finalizado, e eu quero te entregar. Deixa teu e-mail aqui embaixo e ele cai na tua caixa de entrada agora.

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